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Quando o brasileiro reclama do preço do supermercado ou da gasolina, quase sempre atribui o problema à “inflação” ou ao “mercado”.
Mas há um componente estrutural pouco discutido: a forma como o sistema tributário brasileiro está embutido em praticamente tudo o que você consome.
E ele não aparece claramente na etiqueta.
📊 1. Estrutura tributária: dependência do consumo
Segundo dados da Receita Federal do Brasil e estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada:
Aproximadamente 40% a 50% da arrecadação brasileira vem de tributos sobre bens e serviços.
Na média da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, esse percentual costuma ser significativamente menor.
Isso significa que o Brasil depende fortemente de impostos indiretos — aqueles que estão embutidos no preço final.
Exemplos:
ICMS (estadual)
PIS/Cofins (federal)
IPI (industrializados)
ISS (serviços municipais)
Eles incidem em cadeia.
🛒 2. O efeito cascata
Quando um produto chega ao supermercado, ele já passou por várias etapas:
1. Produção
2. Transporte
3. Distribuição
4. Comercialização
Em cada fase há incidência tributária.
Isso gera o chamado “efeito cascata” — tributo sobre tributo ao longo da cadeia produtiva (ainda que reformas recentes busquem reduzir distorções).
O consumidor final paga o resultado acumulado.
⛽ 3. O caso simbólico da gasolina
A gasolina é um dos exemplos mais didáticos.
Ela envolve:
Tributos federais
ICMS estadual
Contribuições específicas
Dependendo do período e do estado, os tributos já representaram uma parcela significativa do preço final ao consumidor.
O debate público costuma focar na Petrobras ou na cotação internacional do petróleo, mas a estrutura tributária também influencia diretamente o valor na bomba.
O imposto não é o único fator.
Mas é parte relevante da equação.
📉 4. Regressividade: quem sente mais?
Segundo estudos do IPEA e dados de pesquisas de orçamento familiar do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística:
Famílias de menor renda comprometem uma parcela muito maior da renda com consumo.
Como o sistema tributa fortemente o consumo, o impacto proporcional é maior para quem ganha menos.
Isso caracteriza regressividade.
A classe média também é fortemente afetada porque:
Consome quase toda a renda
Tem pouca margem para poupança
Está majoritariamente na formalidade
Já famílias de alta renda conseguem:
Poupar parte relevante
Investir em ativos menos tributados
Planejar melhor a carga tributária
📈 5. Impacto macroeconômico
Alta tributação sobre consumo pode:
Reduzir demanda
Diminuir competitividade industrial
Encarecer exportações (quando não há plena desoneração)
Desestimular formalização
Além disso, a complexidade tributária brasileira impõe custos administrativos elevados às empresas — frequentemente citados em relatórios internacionais sobre ambiente de negócios.
Complexidade também é custo oculto.
🔍 6. Transparência limitada
Grande parte dos consumidores não sabe quanto paga de imposto em cada produto.
Embora notas fiscais possam discriminar tributos estimados, o sistema é tão complexo que a compreensão média é baixa.
Sem clareza, o debate público se torna superficial.
Discute-se o preço.
Mas raramente a composição.
🔥 Conclusão
O peso invisível não é apenas financeiro.
É estrutural.
Ele molda:
O que você consome
O que você deixa de consumir
Quanto consegue poupar
Quanto consegue investir
Sua capacidade de mobilidade social
Não se trata de defender imposto zero.
Todo país precisa arrecadar.
A questão central é:
O sistema é eficiente?
É simples?
É transparente?
O retorno compensa o custo?
Enquanto essas perguntas não forem enfrentadas com seriedade técnica, o debate continuará girando em torno do sintoma — o preço alto — sem tocar na engrenagem que o produz.


